domingo, 8 de novembro de 2009

O mate do João Cardoso

Contos Gauchescos - J. Simões de Lopes Neto

- A la fresca! ... que demorou a tal fritada! Vancê reparou?

Quando nos apeamos era a pino do meio-dia... e são três horas, largas! ...
Cá pra mim esta gente esperou que as franguinhas se pusessem galinhas e depois botassem, para depois apanharem os ovos e só então bater esta fritada encantada, que vai nos atrasar a troteada, obra de duas léguas... de beiço!...

Isto até faz-me lembrar um caso... Vancê nunca ouviu falar do João Cardoso? ... Não? É pena.

O João Cardoso era um sujeito que vivia por aqueles meios do Passo da Maria Gomes; bom velho, muito estimado, mas charlador como trinta e que dava um dente por dois dedos de prosa, e mui amigo de novidades.

Também... naquele tempo não havia jornais, e o que se ouvia e se contava ia de boca em boca, de ouvido para ouvido. Eu, o primeiro jornal que vi na minha vida foi em Pelotas mesmo, aí por 1851.

Pois, como dizia: não passava andante pela porta ou mais longe ou mais distante, que o velho João Cardoso não chamasse, risonho, e renitente como mosca de ramada; e aí no mais já enxotava a cachorrada, e puxando o pito de detrás da orelha, pigarreava e dizia:

- Olá amigo apeie-se; descanse um poucol Venha tomar um amargo! É um instantinho... crioulo?!...

O andante, agradecido à sorte, aceitava... menos algum ressabiado, já se vê.

- Então que há de novo? (E para dentro de casa, com uma voz de trovão, ordenava:) Oh! Crioulo! Traz mate!

E já se botava na conversa, falava, indagava, pedia as novas, dava as que sabia; ria-se, metia opiniões, aprovava umas cousas, ficava buzina com outras...

E o tempo ia passando. O andante olhava para o cavalo, que já tinha refrescado; olhava para o sol que subia ou descambava... e mexia o corpo para levantar-se.

- Bueno! são horas, seu João Cardoso; vou marchando! ...
- Espere, homem! É um instantinho... Oh! crioulo, olha esse mate!

E retomava a charla. Nisto o crioulo já calejado e sabido, chegava-se-lhe manhoso e cochichava-lhe no ouvido: - Sr., não tem mais ervas...
- Traz dessa mesma! Não demores, crioulo!.

E o tempo ia correndo, como água de sanga cheia.

Outra vez o andante se aprumava:

- Seu João Cardoso, vou-me tocando... Passe bem! - Espera, homem de Deus! É
enquanto a galinha lambe a orelha! ... Oh! Crioulo! ... olha esse mate, diabo!

E outra vez o negro, no ouvido dele:

- Mas, sr.! ... não tem mais ervas!
- Traz dessa mesma, bandalho!

E o carvão sumia-se largando sobre o paisano uma riscada do branco dos olhos, como escarnicando...

Por fim o andante não agüentava mais e parava patrulha:

- Passe bem, seu João Cardoso! Agora vou mesmo. Até a vista!
- Ora, patrício, espere! Oh crioulo, olha o mate!
- Não! não mande vir, obrigado! Pra volta!

- Pois sim... porém dói-me que você se vá sem querer tomar um amargo neste rancho. É um instantinho... oh! Crioulo!

Porém o outro já dava de rédea, resolvido à retirada.

E o velho João Cardoso acompanhava-o até a beira da estrada e ainda teimava:

- Quando passar, apeie-se! O chimarrão, aqui, nunca se corta, está sempre pronto! Boa viagem! Se quer esperar... olhe que é um instantinho... Oh! crioulo !...

Mas o embuçalado já tocava a trote largo.

Os mares do João Cardoso criaram fama... A gente daquele tempo, até, quando queria dizer que uma cousa era tardia, demorada, maçante, embrulhona, dizia está como o mate do João Cardoso!

A verdade é que em muita casa e por muitos motivos, ainda às vezes parece-me escutar o João Cardoso, velho de guerra, repetir ao seu crioulo:

- Traz dessa mesma, diabo, que aqui o sr. tem pressa!...
- Vancê já não tem topado disso? ...

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