domingo, 8 de novembro de 2009

Chimarrão da Madrugada - Aureliano de Figueiredo Pinto

Não sei por que nesta noite
o sono velho cebruno
ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue.

Tenho olhos de ave da noite,
ouvidos de quero-quero
cordas de viola nos nervos
e uma secura no sangue.

Então, da marquesa salto
e vou direto ao galpão:
bato tição com tição
e a lavarede clareia
os caibros do galpão alto.

Já a cuia bem enxaguada,
corto um cigarro daqueles
de reacender vinte vezes
num trote de quatro léguas
de uma chasqueira troteada.

E, quando a chaleira chia,
principio um chimarrão,
mais verde e mais topetudo
do que um mate de barão.

Me estabeleço num banco
pra gozar gole e fumaça,
pitando um naco de branco.
E entre tragada e golito
saludo mui despacito
cada recuerdo que passa.

Um galo - o cochincho-mestre!
o laço desenrodilha.
E fica só com a presilha
e solta a armada bem grande
do laço de um canto largo
de sobrelombo a uma estrela.

E os outros galos-piazitos
vão atirando os lacitos
como em guachas de sinuelo.

E até um garnisé cargoso
vai reboleando orgulhoso
o soveuzito feioso
feito de couro com pêlo.

Nem relincham os cavalos!
Com brilhos de ponte-suelas,
lá em riba estão as estrelas!
Cá em baixo os cantos dos galos.

A estrela d'alva trabalha
na imensidão da hora morta:
- ou num perfil de medalha
ou a maiúscula inicial
sobre a prata de um punhal
que ainda há de sangrar o dia.

E a "Nova" ao largo se corta,
magra, esquilada, arredia,
empurrando a guampa torta
contra o ventito do Sul,
como num campo de azul,
a ovelha chamando a cria.

Solito, perto do fogo,
como um bugre imaginando,
escuto o Tempo rodando
sem descobrir o seu jogo.

O perro Baio-coleira
faz que cochila... E abre os olhos,
a espaços, regularmente.
E me fixa os olhos claros
como um amigo, dos raros,
cuidando do amigo doente.

É um gosto olhar os brasidos
E os luxos das lavaredas
dançando rendas e sedas
para a ilusão dos sentidos.
E entre o amargo e a tragada
tranqueiam na madrugada
tantos recuerdos perdidos.

E o chimarrão macanudo
vai entrando pelo sangue!
Vai melhorando as macetas,
curando as juntas doridas
como água arisca de sanga
sobre loncas ressequidas.

O peito avoluma e arqueia
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
num Setembro de alvoroto.

Ah! Sangue velho... Descubro
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!

Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...
O mate do João Cardoso

Contos Gauchescos - J. Simões de Lopes Neto

- A la fresca! ... que demorou a tal fritada! Vancê reparou?

Quando nos apeamos era a pino do meio-dia... e são três horas, largas! ...
Cá pra mim esta gente esperou que as franguinhas se pusessem galinhas e depois botassem, para depois apanharem os ovos e só então bater esta fritada encantada, que vai nos atrasar a troteada, obra de duas léguas... de beiço!...

Isto até faz-me lembrar um caso... Vancê nunca ouviu falar do João Cardoso? ... Não? É pena.

O João Cardoso era um sujeito que vivia por aqueles meios do Passo da Maria Gomes; bom velho, muito estimado, mas charlador como trinta e que dava um dente por dois dedos de prosa, e mui amigo de novidades.

Também... naquele tempo não havia jornais, e o que se ouvia e se contava ia de boca em boca, de ouvido para ouvido. Eu, o primeiro jornal que vi na minha vida foi em Pelotas mesmo, aí por 1851.

Pois, como dizia: não passava andante pela porta ou mais longe ou mais distante, que o velho João Cardoso não chamasse, risonho, e renitente como mosca de ramada; e aí no mais já enxotava a cachorrada, e puxando o pito de detrás da orelha, pigarreava e dizia:

- Olá amigo apeie-se; descanse um poucol Venha tomar um amargo! É um instantinho... crioulo?!...

O andante, agradecido à sorte, aceitava... menos algum ressabiado, já se vê.

- Então que há de novo? (E para dentro de casa, com uma voz de trovão, ordenava:) Oh! Crioulo! Traz mate!

E já se botava na conversa, falava, indagava, pedia as novas, dava as que sabia; ria-se, metia opiniões, aprovava umas cousas, ficava buzina com outras...

E o tempo ia passando. O andante olhava para o cavalo, que já tinha refrescado; olhava para o sol que subia ou descambava... e mexia o corpo para levantar-se.

- Bueno! são horas, seu João Cardoso; vou marchando! ...
- Espere, homem! É um instantinho... Oh! crioulo, olha esse mate!

E retomava a charla. Nisto o crioulo já calejado e sabido, chegava-se-lhe manhoso e cochichava-lhe no ouvido: - Sr., não tem mais ervas...
- Traz dessa mesma! Não demores, crioulo!.

E o tempo ia correndo, como água de sanga cheia.

Outra vez o andante se aprumava:

- Seu João Cardoso, vou-me tocando... Passe bem! - Espera, homem de Deus! É
enquanto a galinha lambe a orelha! ... Oh! Crioulo! ... olha esse mate, diabo!

E outra vez o negro, no ouvido dele:

- Mas, sr.! ... não tem mais ervas!
- Traz dessa mesma, bandalho!

E o carvão sumia-se largando sobre o paisano uma riscada do branco dos olhos, como escarnicando...

Por fim o andante não agüentava mais e parava patrulha:

- Passe bem, seu João Cardoso! Agora vou mesmo. Até a vista!
- Ora, patrício, espere! Oh crioulo, olha o mate!
- Não! não mande vir, obrigado! Pra volta!

- Pois sim... porém dói-me que você se vá sem querer tomar um amargo neste rancho. É um instantinho... oh! Crioulo!

Porém o outro já dava de rédea, resolvido à retirada.

E o velho João Cardoso acompanhava-o até a beira da estrada e ainda teimava:

- Quando passar, apeie-se! O chimarrão, aqui, nunca se corta, está sempre pronto! Boa viagem! Se quer esperar... olhe que é um instantinho... Oh! crioulo !...

Mas o embuçalado já tocava a trote largo.

Os mares do João Cardoso criaram fama... A gente daquele tempo, até, quando queria dizer que uma cousa era tardia, demorada, maçante, embrulhona, dizia está como o mate do João Cardoso!

A verdade é que em muita casa e por muitos motivos, ainda às vezes parece-me escutar o João Cardoso, velho de guerra, repetir ao seu crioulo:

- Traz dessa mesma, diabo, que aqui o sr. tem pressa!...
- Vancê já não tem topado disso? ...
Humor Gaudério...

Modernismo - TÂNIA LOPES

O açougueiro e carneador inovara na venda de carnes. Fizera um cursinho desses que dizem que o vivente tem que inovar e melhorar a qualidade dos serviços e, para fazer frente às botiques de carne e aos supermercados, acatou o que lhe aconselharam. Comprara um telefone.

Conforme os pedidos da clientela, seria só anotar e mandar levar em casa.

Na segunda-feira, em que até anúncio no jornal colocara, precisou sair. Pediu para o filho anotar os pedidos e atender no balcão.

O guri aproveitou pra discar todos os números que conhecia, os zero novecentos de sacanagem, desde sorteio de carro, Mãe Diná e o "Ligue djá"...

Na volta, o menino passou o papelzinho para o pai, onde anotara dois números e, escafedeu-se com cara de safado, avisando da porta:

- Pai, um telefone é de um político pedindo carne pra uma churrascada e o outro pra um casamento cigano... Não entendi bem quantos quilos, mas é coisa grande!...

O açougueiro resolveu conferir os pedidos. Discou um dos números achando que era dos ciganos e foi falando apressadamente, faceiro com os pedidos que prometiam pagar logo, logo o investimento novo:

- Alô! Tô telefonando pra saber quando o senhor quer que eu faça a matança... Se esquartejo, se beneficio borrego, capão ou porco... Se mando inteiro ou coreio... ou deixo pra assar à moda cigana., com couro e tudo...

Parou ao ouvir do outro lado um grito horrorizado de uma mulher que atendia o telefone direto do diretório do candidato:

- Pelo amor de Deus, moço!... Não sei quem contratou o senhor como matador, mas posso lhe garantir que o nosso candidato só quer ganhar no voto!!!

sábado, 7 de novembro de 2009

Humor Gaudério...

O Esbui
O gaudério vai até a rodoviária para comprar uma passagem:
- Eu quero uma passagem para o Esbui - diz o gaúcho.
- Não entendi. Pode repetir? - responde o atendente.
- Eu quero uma passagem para o Esbui!
- Sinto muito, senhor. Não temos passagem para o Esbui.
O homem se afasta do guichê, chega perto do amigo que estava esperando por ele e diz, com tristeza:
- Olha, Esbui, o homem falou que para ti não tem passagem não!


Fonte: www.sispronet.com.br/users/tcheloco



Problema de Audição


João vai ver o médico para falar da mulher dele, de 35 anos.
- Doutor, acho que minha mulher está ficando surda. Ela nunca me responde da primeira vez.
Ela sempre me faz repetir as coisas.

- João - responde o médico - volte para casa e fique a 5 metros da sua mulher e diga-lhe algo.
Se ela não responder, aproxime-se mais e repita.
E vá chegando cada vez mais perto, até ela responder.
Assim poderemos saber o grau de surdez que ela tem.

João volta para casa e faz exatamente como o médico recomendou.
Ele se coloca a 5 metros da mulher na cozinha e pergunta:
- Querida, o que temos para jantar ?
Sem resposta. Ele se aproxima dois metros e repete a pergunta.
Nada. Ele se aproxima mais dois metros e repete a pergunta.
Nada. Ele se aproxima mais um metro, encostando-se nela, e repete a pergunta.
Ela responde:
- Pela QUARTA vez, João, temos suflê de queijo !


A Guerra

Estava tendo uma guerra entre portugueses e alemães.
Ambos os lados estavam camuflados e não era possível matar ninguém.
Até que um alemão teve uma idéia: Ele chamaria pelo nome e os portugueses que aparecessem eles matariam.
Então, o alemão gritou:
- Ô Manuel!!!
Uma grande quantidade de portuguêses levantou e os alemães metralharam todos!
Os portuguêses, vendo que metade do exército tinha morrido resolveram revidar.
Pensaram: "Tudo quanto é alemão chama Fritz".
Então gritaram:
- Ô Fritz!!!
Simplesmente o batalhão inteiro da Alemanha apareceu e gritou:
- Não tem nenhum Fritz aqui!!!
E os portugueses:
- Ah, se tivesse...